Cardoso, campeão do mundo (parte II)

28/02/2008 at 17:27 23 comentários

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Publicamos hoje a segunda e última parte da história de João Cardoso, o brasileiro que brilhou nos campos da Argentina e participou da maior glória da história do Racing Club de Avellaneda. Pra quem não leu a primeira parte, clique aqui. Retomamos a história do momento em que Cardoso se encontra no Newell’s Old Boys.

CARDOSO, CAMPEÓN DEL MUNDO – Parte II
Texto: Daniel Cassol e Miguel Enrique Stédile.
Fotos: Eduardo Seidl e Arquivo Pessoal.

Jogou quatro temporadas no time de Rosário, subindo à primeira divisão em 1963 e se tornando um ídolo. Mesmo com o afeto pelo Grêmio e pela glória conquistada no Racing, o escudo na parede da sala revela o time do coração. “O Newell’s acreditou em mim, que era desconhecido na Argentina. Eu tinha sido trocado, como se troca um cacho de banana”, diz.

O sucesso no Newell’s permitiu que Cardoso voltasse a Porto Alegre, depois de um ano e meio, para cumprir uma promessa: casar-se com Elaine, filha de um gerente de banco que não aceitava a idéia da filha gostar de um futebolista. Ainda no Grêmio, morava numa pensão ao lado da casa da futura namorada. Da janela, ela via Cardoso passar e não podia acreditar se tratar de um jogador do Grêmio. “Meu sonho era ter uma camiseta do time, mas meu pai proibia”, ela recorda. Conversaram pela primeira vez quando Elaine apostou uma Pepsi com uma amiga, tomou coragem e chamou o rapaz à sua janela: “É verdade que tu és o Cardoso do Grêmio?”. Perdeu a aposta com a amiga, mas ganhou a promessa. “Um dia, vou casar contigo”, disse Cardoso.

Depois de quatro temporadas no Newells’s foi transferido para o Independiente, de Avellaneda, numa das maiores transações da época, que lhe rendeu de luvas, porém, apenas uma medalha, que guarda até hoje. Sua primeira partida pelo novo clube foi contra o Boca Juniors, na temida Bombonera, atopetada de torcedores xeinezes. Cardoso gosta de lembrar do 2 a 0 sobre o Boca, principalmente do momento em que recebeu a bola no meio do campo e chutou certeiro ao gol. Em outra jogada, correu até a linha de fundo, atrás de uma bola que parecia que iria sair, sob os gritos e xingamentos da torcida adversária. Alcançou-a e olhou para o meio do campo: um batalhão de jogadores do Boca corria em sua direção. Foi carregando a bola até a grande área e a alçou nos pés de Savoy: gol. Bombonera emudecida. Na arquibancada, um torcedor do Boca, de nome Roberto, primeiro argentino que acolhera Cardoso e que se tornaria seu compadre, lamentava: “este desgraçado é meu amigo”.

No dia seguinte, foi entrevistado pela revista El Gráfico, sinal de grande prestígio. O jornalista queria saber se Cardoso sentia saudade das praias e do samba do Brasil. A resposta foi seca: “Nunca vi o mar e não escuto samba”. No final de semana, sairia na página central: “Não tem saudade, não tem palmeiras, não tem samba. Mas tem pique, desmarque e gol”.

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Página central da El Gráfico não era pra qualquer um.

Foi transferido no ano seguinte para o rival da cidade, o Racing Club, para disputar a Copa Libertadores de 1967. “Atravessou a rua” para vestir a camiseta azul-celeste que iria levá-lo ao topo do mundo. Com as luvas da transação, conseguiu comprar um apartamento em Porto Alegre.

O Racing foi campeão de uma das mais longas Libertadores da história, disputando 20 partidas e viajando para Bolívia, Colômbia, Chile, Uruguai e Peru. “Era uma loucura. Tu eras maltratado, xingado, apedrejado. No campo, te atiravam pedra, garrafa. A polícia, em vez de cuidar da gente, batia também”, lembra Cardoso. Em campo, a batalha era franca: “A falta era marcada somente em caso de fratura exposta ou nariz quebrado”, recorda, em tom de brincadeira. Delantero, marcou três gols na competição. Jogou ao lado de craques lendários como Alfio Basille, Juan Carlos Cárdenas, Norberto Raffo, Humberto Maschio e Roberto Perfumo. Mais uma vez longe da 9, jogava com a camisa 7, na ponta direita.

A final foi disputada em três partidas contra o Nacional do Uruguai. Depois de dois empates sem gols, em Montevidéu e Avellaneda, a decisão foi para um terceiro enfrentamento, no estádio Nacional em Santiago do Chile. Cardoso marcou o primeiro gol da partida, aos 14 minutos do primeiro tempo, e o Racing venceu o Nacional por 2 a 1, conquistando sua primeira e única Libertadores. Dali, partiram para conquistar La Gloria Total.

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Jornal argentino destaca jogada de Cardoso contra o Celtic.

Naquele tempo, o Mundial Interclubes era disputado com uma partida em cada país, com um terceiro jogo no caso de empate, em país neutro. Tomaram um avião até o Rio de Janeiro, depois até a Inglaterra, chegando a Glasgow, na Escócia, onde enfrentariam o Celtic, campeão da Europa e também estreante em mundiais. “Havia uma gana de os clubes argentinos ganharem o Mundial. Tínhamos apoio integral dos times, da imprensa. E o Racing era um time querido. Era um time muito técnico, com grandes jogadores”, diz Cardoso. Além disso, o rival Indepediente havia sido derrotado em duas finais anteriores, o que revestia de mais gravidade o desafio do Racing Club.

Na primeira partida, o Racing sofreu uma derrota magra por um a zero. O jogo no campo do Racing terminou em 2 a 1 para os argentinos, com gols de Raffo e Cárdenas. Uma terceira partida se fazia necessária, e ela foi jogada no estádio Centenário, de Montevidéu, terra do time que o Racing derrotara na final da Libertadores.

Mesmo jogando perto de casa, a atmosfera de guerra daquele jogo não sai da memória de Cardoso: “Eram 50 mil uruguaios torcendo para o Celtic. Quando entramos em campo, a torcida gritava ‘maricones, maricones’”. No intervalo, os jogadores do Racing se debatiam para encontrar maneiras de sair do 0 a 0. “Precisávamos chutar, de qualquer jeito, se não íamos jogar dez dias e não sairia gol”, conta Cardoso, que participou da jogada que resultou no gol ao receber de Martins na meia cancha e passar para Raffo. Este encontrou Cárdenas a quase 30 metros do gol adversário. “Ele queria continuar a jogada, porque estava longe do gol, mas nós gritávamos para chutar. Ele era destro e chutou com a canhota”, lembra. Um gol para entrar na história.

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Eis o Racing campeão do mundo.

Depois da conquista do mundial, Cardoso ainda jogou mais dois anos no Racing e ainda ficou 40 dias no Náutico, de Pernambuco, levado pelo treinador Osvaldo Brandão, com quem havia trabalhado no Independiente. Retornou à Argentina para encerrar a carreira no Newell’s Old Boys, aos 30 anos de idade, já com os filhos crescidos. “Achei que era hora de parar e fui embora para casa”, diz a simplicidade costumeira.

Em novembro passado, retornou para Avellaneda com a esposa, os filhos e os netos. O Racing Club comemorou os 40 anos do título mundial reunindo a maioria dos jogadores da época, rebatizando-os de La Gloria – agora é João de la Glória Cardoso, para o divertimento da família e dos amigos. Há quatro décadas não encontrava nenhum dos companheiros da epopéia. “Reconheci todos e todos me reconheceram”, diz.

Foram ovacionados pela torcida do Racing antes de uma partida contra o Boca, no Cilindro de Avellaneda. Y ya lo ves, el equipo de José: os torcedores entoavam o velho cântico da década de 60, referência ao glorioso esquadrão que conquistou o mundo sob o comando de Juan José Pizzuti, treinador até hoje reverenciado, por ter transformado uma equipe de jogadores medianos na mais vitoriosa da história do Racing. No hotel, velhos torcedores do Racing vinham cumprimentar Juan Cardoso, para a surpresa dos netos. “Nunca pensei que o vô fosse tão famoso nesta cidade”.

Provavelmente, nem o próprio João Cardoso pensasse. “Sempre fui muito retraído. Não gostava de sair, nem dar entrevista. Eu tinha emoção de saber que estava jogando futebol, e que era um brasileiro que estava disputando uma Libertadores, o campeonato do mundo, isso sim era muito gratificante”, afirma hoje, sentado na sala de casa, 40 anos depois de conquistar o mundo para o Racing.

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Veja o histórico golaço de Cárdenas, no 1 a 0 contra o Celtic.

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23 Comentários Add your own

  • 1. Francisco Luz  |  28/02/2008 às 17:37

    Sensacional, Cassol. Sem comentários.

  • 2. Robson  |  28/02/2008 às 18:25

    Puta merda, mas é foda esse Impedimento! Estão de parabéns!

  • 3. Roger  |  28/02/2008 às 19:11

    Putaquelopariu, muito bom!!

  • 4. bruno  |  28/02/2008 às 19:14

    vocês são FODAAAAA

    parabéns, do caralho, muito afudê

    dá-lhe Uruguaiana

  • 5. Luís Felipe  |  28/02/2008 às 23:23

    a melhor matéria sobre futebol do ano. Uma qualidade que não se vê em nenhum veículo especializado da área. Parabéns.

    mas uma pergunta não cala aqui: Cardoso era um jogador leal ou entrava por cima?

    Eu duvido que alguém naquele Racing não entrasse por cima, por uma questão de sobrevivência.

  • 6. Ricardo  |  28/02/2008 às 23:57

    fui às lágrimas. o gol no final foi golpe baixo.

  • 7. Gralha  |  29/02/2008 às 09:35

    S E N S A C I O N A L

    Parabéns

  • 8. Aurelius  |  29/02/2008 às 11:01

    Afudê!

    Nada mais a dizer!

  • 9. Matheus  |  29/02/2008 às 11:03

    Totalmente excelente.

    Agora o video foi sacanagem.

    A equipe da ImpedCorp comanda até essa filialzinha ae, essa tal de Youtube.

  • 10. Carlos  |  29/02/2008 às 11:29

    http://globoesporte.globo.com/ESP/Noticia/Futebol/0,,MUL332018-4274,00-VIDEO+AS+MUSICAS+QUE+SACODEM+AS+TORCIDAS.html

    Demais…até as musicas roubadas agora são dos cariocas…

  • 11. Mateus  |  29/02/2008 às 13:02

    brilhante.

    (video no longer available?)

  • 12. izabel  |  29/02/2008 às 14:07

    sensacional.

    “a melhor matéria sobre futebol do ano. Uma qualidade que não se vê em nenhum veículo especializado da área. Parabéns.”

  • 13. dante  |  29/02/2008 às 17:26

    emocionante. golaço. até os policiais foram comemorar o gol. asdklçjsadkl

  • 14. Gabriel Marcondes  |  29/02/2008 às 17:28

    esse golaço, me fez chorar

  • 15. Larápio do Sanchotene  |  01/03/2008 às 01:55

    Re 10:

    Sensacional a matéria. As três primeiras músicas, ditas como sendo de Flamengo, Botafogo e Vasco, são de Inter, Porto (POR) e Grêmio!

  • 16. FERN  |  02/03/2008 às 13:19

    50.000 uruguayos torcendo pro Celtic.

    ISTO É FUTEBOL!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  • 17. Claudia Cardoso  |  10/05/2008 às 17:31

    Emocionantes tb os cometários dos dois posts. Irei mostrá-los ao pai. Quanto a “entrar por cima” citado no comentário acima. O pai conta uma história, na qual ele se auto-expulsou. Acho que era um jogo pelo Newell1s, não lembro direito, terei que perguntar. Ele entrou tão feio e de propósito, que nem esperou pelo cartão vermelho: foi saindo do campo direto, sem olhar o árbitro. Mas, naquela época, jogador expulso ia para a cadeia, ou ficava detido no estádio. Depois, o clube soltava. A violência nos campos argentinos sempre foi a regra e, nos anos 60, deveria ser muito pior que hoje.
    No mais, ele não batia como seus companheiros. Apanhava mais por ser atacante.

  • 18. Gregório Duro  |  15/05/2008 às 17:06

    Parabéns a todos que trabalharam nesta histórica reportagem.Sensacional!

  • 19. Mauro Fernando do Canto  |  03/03/2009 às 17:09

    Sou primo irmão da Elaine e tenho o maior orgulho do João.Sempre tive uma admiração por ele e tenho certeza q. se ele jogasse nos tempos de hoje seria reconhido por todos.Lembro com muitos detetelhes q. meu pai nos reuniu lá em casa para ouvir-mos a partida decisiva com Rancing e lembro q. nos emocionamos muito com a conquista do titulo, nos encheu de orgulho a conquista.Tenho certeza q. filhos e netos são muitos orgulhosos da conquinta do Cardoso e alem disso são orgulhosos do carater dessa pesso que admiro muito. Tu merece João. Abraçoi

  • 20. Pedro Martin  |  11/04/2009 às 10:25

    Parabéns por essa excelente reportagem.
    Ainda mais para um fanático torcedor do Racing como eu.

  • 21. Luis F.  |  10/08/2009 às 20:23

    confesso que fui as lágrimas com o gol no final. sensacional o texto, parabéns!

  • 22. Yuri  |  11/08/2009 às 14:55

    Que grande história, não sabia que um brasileiro havia sido campeão pelo Racing nesse ano… sensacional.

    Gostei muito de saber que ele é retraído, nunca gostou de sair e não gosta de praia, que bom gosto, isso é que é!! Grande Cardoso, realmente um herói para todos que admiram o futebol.

    Parabéns a todos os envolvidos na história e na reportagem.

  • 23. Roberto Cardoso  |  02/11/2010 às 14:45

    sendo filho do Cardoso me emociono e me envaideço. Realmente, além de ter sido um delantero que botava medo nos adversarios, é um grande homem, com grande carater e amor no coração. Valeu primo Mauro e obrigado pelo presente da impedimento. Abraços Roberto

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