Cardoso, campeão do mundo (parte I)

26/02/2008 at 11:30 24 comentários

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Passamos a contar a história de João Rodrigo Cardoso, este jovem senhor que hoje desfruta de sua aposentadoria no bairro Tristeza, em Porto Alegre. Ele jogou futebol. Saiu de Uruguaiana para conquistar o mundo em nome de um time de futebol. Era o único brasileiro presente no histórico ano de 1967 do Racing Club de Avellaneda, quando o clube argentino conquistou a Libertadores e o primeiro título mundial do futebol do país.

O Cardoso nos recebeu – Daniel Cassol, Miguel Enrique Stédile e Eduardo Seidl – no seu apartamento, em dezembro do ano passado. Jantamos e tomamos alguma cerveja com ele, para uma reportagem que está publicada na edição de fevereiro da Revista Brasileiros. Vale visitar o site da revista, que traz o vídeo do gol de Cárdenas contra o Celtic, da Escócia, na terceira partida do Mundial Interclubes. O texto que segue é quase o mesmo que foi publicado na revista.

**********************************

CARDOSO, CAMPEÓN DEL MUNDO
Texto: Daniel Cassol e Miguel Enrique Stédile.
Fotos: Eduardo Seidl e Arquivo Pessoal.

O jogo está encardido. O Celtic da Escócia e o Racing Club da Argentina estão no 0 a 0 na terceira e decisiva partida do Mundial Interclubes de 1967. O jogo se arrasta nervoso como as grandes decisões: poucos arremates a gol e muitos pontapés no meio do campo. A pressão é maior sobre La Academia. O ponteiro marca dez minutos da etapa final. O atacante Cárdenas recebe a bola a 30 metros da meta adversária. Patea, patea – chuta, chuta – gritam os companheiros. É o que Cárdenas faz. Em linha reta, a bola alcança o ângulo direito, inalcançável para o arqueiro Fallon. Golaço. O mês de novembro recém conta quatro dias e o Racing se torna o primeiro clube argentino campeão do mundo.

Um único brasileiro está em campo nesta noite. É João Rodrigo Cardoso, gaúcho de Uruguaiana que tentou ser feliz no Grêmio, mas fez carreira no futebol argentino, passando pelo Newell’s Old Boys e pelo Independiente. Conhecido pelo sobrenome, jogou uma das mais disputadas Libertadores da América para depois enfrentar o Celtic nas três partidas da conquista mundial.

Quarenta anos depois, Cardoso manda avisar que não comparecerá na cervejinha cotidiana com os amigos, em um bairro da Zona Sul de Porto Alegre. Veste a gloriosa jaqueta alvi-celeste e retira as medalhas e quadros da gaveta, para receber jornalistas em seu apartamento, fato que surpreende os três filhos: com 69 anos, aposentado como fiel de armazém do Departamento Estadual de Portos, Rios e Canais (Deprec), Cardoso sempre foi arredio à imprensa. Do passado, pouco fala, a não ser quando lhe suplicam pelas histórias de quando estufava as redes nos estádios de futebol ao sul do continente.

Parece que as coisas mudaram desde que voltou à Argentina, em novembro último, para receber homenagens pela conquista. No ônibus de volta – porque tem medo de avião – talvez tenha se dado conta de que fez algo grande na vida: jogou futebol, sobretudo, e foi o único brasileiro a ter participado da maior glória do Racing Club de Avellaneda.

Nos tempos de Uruguaiana
Sua epopéia pessoal começou nos campos enlameados de Uruguaiana, na fronteira do Brasil com a Argentina, onde nasceu, no Natal de 1939. Seus pais se chamavam Aristotelina e Aristóteles, um criador de ovelhas que mudou-se para cidade, onde administrou por décadas o Mercado Público Municipal. Às noites, João Cardoso cabulava as aulas do Colégio União para jogar futebol sob os postes de luz nas ruas da cidade. Recebia surras do pai pela falta de dedicação aos estudos, aos quais respondia: “Pode me bater, mas um dia eu vou jogar no Grêmio”.

E assim aconteceu. Aos 20 anos, quando saía do serviço militar, uma boa atuação numa olimpíada militar lhe rendeu seu primeiro contrato profissional com o Esporte Clube Uruguaiana. Jogou ali por pouco mais de três meses. Em setembro daquele ano, o Grêmio Porto-Alegrense foi à cidade realizar um amistoso contra o Uruguaiana. Cardoso correu, chutou, jogou bem: treze dias depois, assinou com o time da capital, treinado pelo lendário Osvaldo Rolla, o Foguinho.

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Cardoso (agachado, segundo da esquerda para direita) jogou no Grêmio de Juarez, Aírton, Gessi e Foguinho.

Podia ter tido melhor sorte com a camiseta tricolor. Era capaz de executar um “rush fulminante”, nas palavras do jornalista Walter Galvani. Tratava-se de “um tipo raro de avante, nestes tempos em que quase todos querem logo se ver livres da bola, temerosos das cargas dos adversários”, segundo o jornalista que, escrevendo na época, previa um problema para o treinador Foguinho: Cardoso era da mesma posição que Gessi e Juarez, dois atacantes que entrariam para a galeria dos maiores craques do Grêmio, pentacampeão gaúcho de 1956 a 1960 e que seria hepta de 1962 a 1968. “Foi o meu azar”, lembra Cardoso.

Nos três anos em que esteve no Grêmio, João Cardoso jogava mais nos aspirantes e raramente na equipe principal. Centroavante de ofício, precisava improvisar-se na ponta direita para garantir um lugar no time de cima. Seu habitat era a grande área, mas a distância da camisa 9, sua preferida, foi a sina que o acompanhou até o fim da carreira.

Não tem perigo, dizia Foguinho
O mercado ainda não determinava o calendário do futebol. Na falta de competições, os times faziam excursões pelo mundo. Cardoso conheceu quase toda a Europa defendendo o Grêmio, em horas intermináveis de pânico em aviões que pareciam se desmanchar no céu. Em uma das partidas, enfrentaram o Real Madrid, regido pelo húngaro Puskas. “Era baixinho, gordo, mas não conseguíamos pegá-lo nem com as mãos”. Conta Cardoso que, antes da partida, o treinador Foguinho foi falar com o zagueiro Pavilhão, usando um de seus bordões: “Não tem perigo, senhor Aírton. Este Puskas até eu consigo marcar”. No intervalo da partida, já com dois gols de Puskas, o zagueiro retrucou o treinador: “Seu Foguinho, o senhor não quer entrar em campo pra marcar o Puskas?”.

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Em excursão pela Europa, Cardoso marca um gol contra o AEK da Grécia.

Ao cabo da excursão, havia jogado bem e marcado 12 gols. “Na volta para o Brasil, pensei que viraria titular”, diz. Mas o Grêmio contratou Paulo Lumumba para a mesma posição e Cardoso adotou uma estratégia suicida, na tentativa de ser negociado para outro clube: “Fiquei brabo e não treinava. Quando me botavam pra treinar, chutava a bola pra longe, bagunçava o treino”.

Tentar a sorte na Argentina
Ao fim, foi para o Newell’s Old Boys, na segunda divisão argentina, trocado por um ponteiro direito, Ribeiro, a quem chamavam Tesourinha II, por sua semelhança com o craque do Internacional na década de 40. Cardoso selou seu destino e foi jogar bola do outro lado do rio Uruguai. “Eu não conhecia futebol argentino, clubes na minha infância eram Santos, Palmeiras, porque em Uruguaiana só se sintonizávamos as rádios do centro do País. Não fazia idéia de que time era o Newell’s”.

Era um tempo em que os brasileiros povoavam as canchas do país vizinho, embalados pelo bicampeonato brasileiro na Copa do Mundo. Só no Newell’s haviam outros sete brasileiros: Zuca, Cacique, Mourão, Cleo, Adroaldo, Ivo Diogo, Deraldo Conceição.

* Publicado originalmente na Revista Brasileiros.
** No próximo capítulo, La Glória mundial.

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Entry filed under: Contribuições.

Bolero dengoso na ponta do Clausura Desesperança

24 Comentários Add your own

  • 1. Luís Felipe  |  26/02/2008 às 11:42

    esse é o tipo de matéria que eu gostaria de ter feito. Comprarei a revista. Obrigado.

  • 2. Robson  |  26/02/2008 às 12:13

    [off]
    Kaká: ‘Não agüento mais apanhar’
    Meia diz que muitos jogadores sofrem com faltas violentas e pede ajuda aos árbitros
    http://globoesporte.globo.com/ESP/Noticia/Futebol/Campeonatos/0,,MUL314798-1306,00.html

    Vai jogar vôlei atleta de Deus!!!!

  • 3. Dudu Kontra  |  26/02/2008 às 12:30

    Fala isso pro brasileiro que teve fratura exposta e vai ficar uns bons meses sem poder jogar…

  • 4. Robson  |  26/02/2008 às 12:30

    Muito boa a reportagem!

  • 5. Robson  |  26/02/2008 às 12:31

    Esse brasileiro vai jogar só videogame daqui em diante.

    Isso acontece, faz parte do futebol!

  • 6. Francisco Luz  |  26/02/2008 às 12:37

    Sensacional a matéria. Também invejei a FEITURA.

  • 7. Carlos  |  26/02/2008 às 12:48

    Muito bom…muito bom mesmo.

  • 8. Gustavo  |  26/02/2008 às 13:06

    Importante resgatar estes nomes históricos, geralmente esquecidos.

  • 9. Larápio do Sanchotene  |  26/02/2008 às 13:15

    Morre de inveja, Alegrete!

  • 10. izabel  |  26/02/2008 às 13:22

    muito massa a reportagem, Cassol.

  • 11. Paul  |  26/02/2008 às 14:27

    Muito, MUITO boa a reportagem. Parabéns gurizada, e obrigado.

  • 12. Carlos  |  26/02/2008 às 15:06

    Além de tudo, o véio é gremista.

  • 13. Dudu Kontra  |  26/02/2008 às 15:21

    Pimenta no dos outros é refresco, esse tipo de pensamento é que estraga tanto uma carreira quanto uma pelada depois do serviço.

  • 14. mardruck  |  26/02/2008 às 16:05

    Genial!

  • 15. Dudu Kontra  |  26/02/2008 às 17:12

    Gracias!!!

  • 16. Diogo  |  26/02/2008 às 17:54

    Tem boa memória o senhor Cardoso, apesar dos quase setenta anos.
    Aguardo o segundo capítulo.

  • 17. fongfengmode  |  27/02/2008 às 00:46

    “An exellent post on a good blog, you can make some money with your blog, like me at http://blogmakemoney2.blogspot.com“

  • 18. Araã  |  27/02/2008 às 02:00

    Putz, quanta coincidência… Semana passada ganhei da namorada a camisa do Rangers e nessa semana mamãe me presenteou com a do Racing. Tem como jogar no bicho?

  • 19. Marcos SL  |  27/02/2008 às 02:52

    Sem palavras , senhores!!! Excelente tópico!

    Aguante Racing!!

  • 20. Marcelo Brazil  |  27/02/2008 às 10:33

    Eu tenho um tio que jogou no Gremio nessa mesma época.
    O nome dele é Wolney Rivoire.
    Ele também é meio avesso à imprensa. Como eu sou da família, já perdi várias noites na casa dele ouvido as histórias dele, dessa excurssão do Gremio quando jogou contra o Real Madri do Puskas, Di Stefano(melhor jogador de todos os tempos, na opinião desse meu tio) e Cia.
    Ele tem dezenas de álbuns com fotos, recortes de jornais e tudo mais.

    Se eu não to enganado, na foto ali do time do Gremio ele tá de pé, a direita.

  • 21. Gralha  |  27/02/2008 às 11:24

    Wayne Rooney??

  • 22. FERN  |  28/02/2008 às 11:35

    e pensar que futebol perdeu tanto em prazer.

  • 23. Claudia Cardoso  |  10/05/2008 às 17:20

    Que vexame! Só agora li o post sobre o pai aqui! Dica do Milton Ribeiro. Puxarei os cabelos do Daniel… 🙂

  • 24. sueli  |  26/06/2010 às 17:35

    gostaria de saber se tem fotos do racing clube no ano de 1964 a 1968 ….. pois tenho um amigo que jogou no racing neste ano ele se chama Luis Claudio (EL NEGRITO )

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