Notas sobre um filme

21/12/2007 at 09:00 25 comentários

Já estava com vergonha, me sentindo mal, chutando pedra na rua, acabrunhado, mas enfim assisti a Gigante – como o Inter conquistou o mundo. Dia desses, num intervalo qualquer entre coisas que precisava fazer, dei voz ao que realmente desejava fazer e escapuli para dentro de um cinema, pagando meia-entrada e fazendo o único uso decente da conta que certa vez abri em determinado banco.

[há relatos sobre o filme. Quem não quer saber de nada para assistir depois, tenha cuidado]

Esperava bem mais do filme. É emocionante, como não conseguiria deixar de ser nem que se esforçasse muito, mas me incomodou a previsibilidade e a suposição de que o filme encantaria apenas porque fala de um assunto que está cercado e PRENHE de encantos. Achei cansativo ficar escutando aqueles torcedores falando do que fizeram ou deixaram de fazer. Tirando uma ou duas histórias – como a do cara que saía do estádio sempre aos 40 do segundo tempo para rezar – o resto, ao menos em frente às câmeras, pareceu meio forçado. Não foi a pedrada na alma que eu esperava.

Me cansou também aquela história de planejamento, nutricionista, tudo cuidado nos mínimos detalhes e em todas as mais ínfimas exigências. Muito tempo com aquilo. Estes são aspectos geralmente narrados em uma obra oficial da instituição, não em um filme que se posiciona como “feito por um colorado para colorados”, como disse o diretor Gustavo Spolidoro ou “dedicado à apaixonada torcida colorada”, como em certo momento aparece na tela. A massa – eu dentro, nesse espírito fui ao cinema – não quer saber se o jogador tomava café da manhã quando era pra jantar para se adaptar ao fuso horário. O que eu quero ver é o torcedor desdentado correndo com a bandeira em farrapos na Goethe, sua euforia individual em meio à multidão. Quando for minha intenção saber se o jogador dormiu seis ou oito horas, eu compro o DVD do clube.

Nos momentos em que Gigante entra no clima, fica a sensação de querer mais. Como nas passagens com os massagistas Juarez e Banha, funcionários identificados com o clube, que se emocionam com a narração do fim do jogo. Nos rostos, percebemos as marcas de pessoas já com certa idade, que viveram todos os momentos do time nas últimos anos, conviveram em tempo integral com os boleiros e, por conseqüência, experimentaram dentro do Inter a nossa história de tristeza, ascensão e êxtase. O filme tem coisas bonitas, imagens marcantes, relatos de chorar, mas deveria ter mais, infinitamente mais.

Algo que acaba tornando a obra meio evidente são as imagens, quase nada inédito. Entendo que por um destes caprichos da mecânica capitalista muitas vezes um torcedor não pode ver as imagens das quais o seu time foi protagonista. Mas eu, como espectador, gostaria de que, ao se falar do jogo contra o Olímpia, imagens da tragédia fossem mostradas. Da mesma forma como não me contento com uma fotografia quando citam o gol mil em Gre-Nais do Fernandão. A edição é competente, o que não surpreende, pois quem meteu a mão foi o Giba. Mas fui esperando ser apanhado pelo pé, queria ser atacado de surpresa, o que não aconteceu. Esperava outras visões do gol, outras abordagens da festa, personagens até então desconhecidos. Sobre a narrativa, nenhuma diferença ou vantagem em relação a todos os outros relatos já feitos. Fischer provavelmente estava pensando em mais um verbete para o seu dicionário de porto-alegrês e não teve tempo para ser criativo.

Enquanto o Inter e uma fatia mínima de sua torcida estavam no Japão, alguns milhões estavam aqui contando minutos e desafiando todos os parâmetros da euforia, vivendo um sonho que, muitos acreditavam, poderia se transformar num pesadelo, colocando bandeiras, camisas, toalhas em casas, carros e bicicletas, fazendo promessas estapafúrdias, vinculando ao desfecho daquele momento o destino de suas histórias, se seriam descrentes para o resto da vida ou se poderiam morrer sorrindo logo após o churrasco dominical. A não ser por algumas imagens da Goethe, o filme esquece disto. E prefere contar a impressionante saga de um torcedor que achou por bem comprar um tambor em Yokohama. Faltou tragédia, e, num filme sobre o Inter, pode faltar tudo, menos tragédia.

Também os jogadores não me pareceram à vontade para manifestar o que de mais puro sentiram com a conquista. Nas poucas vezes em que aconteceu, percebemos o discurso empolgante e transtornado do Fernandão antes da final, bem como Abel Braga bêbado pela loucura da decisão: “Eu perco, vocês ganham. E, se fizerem o que eu digo, não vão perder”.

No entanto, pude confirmar que Edinho é o maior jogador que já pisou no Beira-Rio. Primeiro, diz que os jogadores se deram conta de que “se a gente pegasse, desse neles, poderíamos ganhar”. E fala isto batendo uma mão fechada na outra aberta. Eu pensando: “este é o meu garoto, este honra a camisa que eu sempre quis que fosse minha”. Depois, naquele lance em que deu um cotovelaço no nariz do Índio, diz que largou o braço poque achou que era o “lourão”, também conhecido como Gudjohnsen.

Quando as luzes foram dando sinais de vida e o cara que antigamente era chamado de lanterninha apareceu para ver se a sala estava inteira, levantei sabendo que tinha gostado de ver o filme. Me emocionei, a sensação de ver na tela grande é indescritível, é sempre bom lembrar daqueles momentos. Mas todos os colorados assim se sentiram, aposto. Eu esperava mais, achava que Gigante me chutaria no rim, queria ser assaltado pelo assombro, e não fui. Talvez por isto no mesmo dia tenha comprado o DVD duplo, com os extras. Tenho a esperança de que lá eu encontre aquele torcedor solitário correndo feliz numa estrada qualquer, agitando uma bandeira suja e rasgada, vermelha e branca.

Saudações,

Douglas Ceconello.

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Nobreza e galhardia no areião do Ramiro Souto Mengo?

25 Comentários Add your own

  • 1. nelson rodrigues  |  21/12/2007 às 09:59

    o videotaipe é burro. o filme é obra de idiotas da objetividade e ignora o aspecto sobrenatural da decisão!

  • 2. Carlos  |  21/12/2007 às 10:07

    Eu tenho uma pergunta:
    Algum gremista viu esse filme? E se viu, o q sentiu?

  • 3. Beto Borracho  |  21/12/2007 às 10:35

    Não vi e nunca vou ver!

    Esses dvd’s de clubes servem apenas para trazer a mente momentos que vivemos naqueles dias.
    Eu me emocionei não com o filme do Grêmio, mas lembrando de tudo que passei em Recife. Esse é o sentimento da maioria dos gremistas e colorados com quem converso, eles falam pouco sobre o filme e muito sobre onde estava, o que fazia, quem o acompanhava…..
    Eu prefiro comprar um dvd com todos os gols das Libertadores de 83/95, imagens da torcida, vestiário, festa…do que relato de torcedor, jornalista e dirigentes. Mas ai entra essa história de direito de imagem, que é um assunto enrolado e chato pra caralho.
    Estamos “tentando” fazer um dvd da Geral há 6 meses e essa merda está trancando tudo.

  • 4. joão carlos  |  21/12/2007 às 10:39

    eu vi uns 20min, na frente da multisom do xópis. qnd deu o gol, saí fora. não queria ficar de mal humor…

    futeboliscamente, foi afudê. gremisticamente, bem, PREFIRO NÃO COMENTAR.

  • 5. fino  |  21/12/2007 às 11:02

    Acordei no intervalo. 0 x 0. Pensei: “Fodeu, os fia das puta vão ganhar essa merda”

    Após o apito final fui buscar uma fumeta na vila pra me acalmar. A bocada estava em festa, churrasco no tambor, criançada pelada tomando banho de mangueira na calçada…

    E admito, até dei umas BUZINADAS na Protásio Alves

    uhusdhafysadygygfuhasduhfuhdasgh

  • 6. Gustavo  |  21/12/2007 às 11:03

    Não vi. Nem irei, assim como o FILHOS DE FRANCISCO.

    Como é inevitável trazer o assunto, no INACREDITÁVEL eu não consigo deixar de me emocionar muito com a sequencia inicial, que mostra o gordinho escroto assistindo o jogo na TV, até o momento em que acontece o penalti e ele coloca as duas mãos na cara, desolado. E começa a tocar o hino…

    Nem preciso assistir mais nada.

  • 7. Carlos  |  21/12/2007 às 11:04

    “E admito, até dei umas BUZINADAS na Protásio Alves”

    Bom esse teu fumo, heinhô?

  • 8. fino  |  21/12/2007 às 11:07

    Cara, as buzinadas foram só pra não ter meu carro depredado

  • 9. Francisco Luz  |  21/12/2007 às 11:11

    É diferente de um filme normal, na medida em que se conhece (muito bem) a história.

    Faltaram algumas cenas, como as de torcida em Porto Alegre, mencionadas. Mas, sobre imagens do jogo, não tinha como conseguir mais nada. E acho que até da Goethe ia complicar, já que as imagens eram da RBS, e pelo que parece, o apoio principal veio da Record.

    Por fim, só reclamo de uma coisa. Devido a politicagem do véio Arthur Dallegrave, o Fernandão não cita o nome do Paulo Cesar Carpegiani quando fala dos jogadores históricos do Inter. Ridículo, isso.

  • 10. Carlos  |  21/12/2007 às 11:14

    Ah bom…

    Quero aproveitar o ensejo e desejar a todos boas festas…

    Abraços a todos com quem me envolvi em polêmicas…

  • 11. mardruck  |  21/12/2007 às 11:19

    “Como é inevitável trazer o assunto, no INACREDITÁVEL eu não consigo deixar de me emocionar muito com a sequencia inicial, que mostra o gordinho escroto assistindo o jogo na TV, até o momento em que acontece o penalti e ele coloca as duas mãos na cara, desolado. E começa a tocar o hino…”

    Eu era mais gordinho naquela época. Me identifiquei horrores com o cara.

    E era boa a erva do Fino, hein.

  • 12. Luís Felipe  |  21/12/2007 às 11:58

    também não tomei vergonha na cara para ver o filme. Li todo o texto, porém, pq sei que vou ver esse filme mesmo que seja ruim – como o Bastidores de Um Sonho.

    Filme de clube é sacal por natureza. Por que eles têm que preservar A IMAGEM DA INSTITUIÇÃO e o diabo a quatro. O ideal é sempre fazer um filme baseado numa história paralela à história principal. O filme do George Best, por exemplo, é o melhor que eu vi sobre futebol. Não só pq a história do cara é fantástica, mas por que ele não se presta a aliviar a imagem do Manchester United.

  • 13. dante  |  21/12/2007 às 13:30

    “Após o apito final fui buscar uma fumeta na vila pra me acalmar”

    safdlçkdsfçlksdlçfksdlçfklçsdkflçskdlçfkslçdfksdf

    dflçsdflsdçflçsdlfçsldfsçdfçlsdf

    sdlfksçldfklçsdkfçlsdf

    melhor mensagem de fim de ano possível!

    abrazon, fino!

    abrazon, impedimento!

    que MORRAM TODOS em 2008, em chamas ou não!

  • 14. Sérgio  |  21/12/2007 às 14:17

    “Por fim, só reclamo de uma coisa. Devido a politicagem do véio Arthur Dallegrave, o Fernandão não cita o nome do Paulo Cesar Carpegiani quando fala dos jogadores históricos do Inter. Ridículo, isso.”

    Também achei. O resto do filme é duca.

    Dallegrave = político escroto.

  • 15. Gabriel  |  21/12/2007 às 14:25

    Eu vi o filme e achei INFINITAMENTE melhor do que o Bastidores de um Sonho.
    Mas também sinto a falta de um pouco mais de vida, de emoção…
    Os torcedores que estão no estádio e dão depoimentos é tudo galera que tá lá porque conhece alguém relacionado ao filme, video Boca, o negauzinho de chapéu, (diretor de fotografia), o cara q fez locução do Toshiro, na mesma produtora de audio que fez o filme, enfim, tudo amigo…
    Sobre a direção do Spolidoro não se pode culpar muito, ele disse que tinha um monte de idéias mas q tinha muito cacique dizendo o que fazer, e certamente a parte da nutrição e cia limitada foi idéia q veio de cima.

    Mas assim mesmo recomendo, o fernandao no vestiario é pro cara chorar de soluçar no cantinho da sala ajoelhado no milho!

  • 16. Luís Felipe  |  21/12/2007 às 14:30

    daqui a uns 20 anos, talvez alguém recupere a história da forma que aconteceu e faça um filme com atores, cenários, e conte o fato de forma mais humana. O Milagre de Berna, por exemplo, é um filme bom por causa disso. Não é um vídeo institucional. É uma história bem contada.

  • 17. Gabriel  |  21/12/2007 às 14:36

    Um amigo meu me mostrou um sobre a libertadores Soy Loco Por Ti America que é muito afude, com a cobertura da TV antes dos jogos, imagens da Fox, Record, Glogo, Band….
    Achei bem legal, melhor q o bastidores de um sonho que é muito chato.

  • 18. Francisco Luz  |  21/12/2007 às 14:38

    Esse Soy Loco foi feito por um torcedor do Inter, que tem um blog colorado. Ele promete um sobre o mundial, que cobriu in loco, para o fim do ano. Veremos.

    http://bolavermelho.blogspot.com

  • 19. dante  |  21/12/2007 às 16:01

    esse “soy loco” é muy loco. [desculpa]

    e tem ainda um OUTRO vídeo sobre a conquista da libertadores, que eu tenho mas não sei de onde baixei.

    sim, eu bebo.

  • 20. Carlos Santos  |  21/12/2007 às 16:37

    Logo após a conquista do mundial, vi muitos vídeos do pessoal que estava lá, até na época tava no orkut, mas um me chamou a atenção, pois o cara fez varias filmagens da torcida do inter no estadio e mostrava muitos focos de colorados principalmente na superior, mas o mais afude foi ter vistos a filmagem de 2 ou 3 mil colorados no patio do estidio de yokohama com bandeiras e tudo mais comemorando o título, foi show!

  • 21. augusto  |  21/12/2007 às 17:09

    nao fui ver pq o final é sem graça.

    : /

  • 22. J Petry  |  21/12/2007 às 17:24

    Eu não sei que filmes sensacionais o Douglas anda vendo, mas depois de ter assistido “Bastidores de um sonho”, que é mais um “making of” do que propriamente um filme, “Gigante” chocou positivamente, e eu nem assisti em tela grande. Passei a tarde meio transtornado tentando não aparentar loucura. Recomendo aos colorados.

  • 23. Cassol  |  21/12/2007 às 18:03

    Sou tão azarado que no final do filme que eu vi o Gabiru erra o gol.

  • 24. Schröder  |  21/12/2007 às 23:28

    Bah… vi hoje o filme porque me torturaram um mês falando que era muito bom. Não achei nada sensacional e na minha cópia – que era original e dupla – a imagem e o som estavam desincronizados.

    Parecia que o Giba tinha bebido 100 litros de chope lembrando da final. Mas, no meu filme o Inter ganhou de 1 a 0 e, quanto a isso, achei irreparável!

  • 25. Larápio do Sanchotene  |  23/12/2007 às 17:43

    Tu ris, Cassol. Mas eu não vi nem “Inacreditável” nem “A Batalha…” (tenho ambos), porque tenho medo que o Náutico acerte um pênalti…

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