O Ruy e o Alex Mineiro

02/07/2009

Diante da impossibilidade de me alistar em um guerra ou sustentar uma família, tenho procurado manter viva a clava de meus ancestrais exercitando a paciente arte da pesca. Sofro diante do feminismo que acabou comigo e com o homem contemporâneo, alojando as mulheres no malévolo mercado de trabalho. As mulheres não precisam mais de nós e nem de seus olhos com visão de 180°: fomos substituídos por um horário das 9h às 18h e por aqueles walkie-talkie coloridos que avisam quando o bebê está chorando. Iludo o homem das cavernas que ainda resta em mim com os peixes, o faço acreditar que estou em busca do meu próprio alimento.

Acontece que os peixes também passaram por algo tão desastroso e devastador para a alma do homem quanto o feminismo. Não sei se houve queima eufórica de calcinhas e barbatanas ou se rolou tudo em um suave consenso, fato é que as criaturas não acreditam mais nessa história milenar de que minhoca faz mergulho esportivo. Estou desolado, há mais de uma semana tentando inutilmente encontrar algum escamoso ortodoxo que não tenha aderido à revolução – em vão.

Largo tudo na encosta pedregosa que contorna os morros baixos da cidade e vou para a praia. Estendo minha toalha na areia, tiro a camiseta e deito. Viro de bruços como quem abraça a desilusão, já meio miolo mole pelo sol, olhos descobertos de qualquer proteção UVA ou UVB, e vejo, não tão ao fundo, duas volumosas dunas em forma de corcova de camelo. Aperto o polegar e o indicador contra os olhos para clarear a vista, decido alocar meu Ray Ban para evitar a luminosidade em excesso. “De onde vieram essas dunas?”. Contorno uma delas lentamente sem mover a cabeça, parto do ponto mais alto em direção à base, provo a confluência entre ambas, passeio por ali como um vendedor de redes quase aposentado e, por fim, compreendo a visão sem a menor chance de errar: é uma gorda fazendo topless.

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Não uma gorda-gorda daquelas quase remelentas, é uma gorda-firme, daquelas gordinhas que deram certo – e aquelas dunas da perdição são seus monumentais seios à deriva. A gorda lê algo que o sol não me deixa descobrir e, enquanto lê, acaricia lentamente seus peitos, um de cada vez em intervalos corretos e de maneira a confundir minhas pupilas. Imaginariamente me encho de coragem, fantasio a situação hipotética de levantar, caminhar até ela a passos lentos exercitando o silêncio de Cobra do Deserto.

- Oi.

Ela só me olha, mas me olha “oi”, sem dizer. Dobro meus joelhos para chegar mais perto e poupo alguns frames de meu filme imaginário indo direto ao ponto, cortando a história como todo bom cine pornô deveria ser.

- Posso passar a mão nos teus peitos?

Ela me olha, me olha “sim”, sem dizer. A gordinha é safada. Decido usar aleatoriamente a mão esquerda para começar a moléstia e, assim que toco o primeiro poro da duna mais próxima, me vejo diante de um dilema utilitarista fora de propósito: precisaria dar um sentido àquilo tudo, fazer daquele momento algo realmente proveitoso para mim e para a humanidade – ou ao menos à parte dela. Logo imagino que aquelas duas parábolas lisas e sem pêlos têm contornos familiares. Recorro às minhas traiçoeiras memórias que parecem distantes, levo certo tempo para entender o recado pescado em meu subconsciente até me convencer que, sim, os seios da gordinha safada que faz topless na areia são projeções inconfundíveis das cabeças do Ruy e do Alex Mineiro.

Boto fé na mandinga e logo começo a chafurdar com mais afinco aquelas carnes, imaginando que quanto mais vezes eu as acariciar, mais chances tenho de ver Ruy e Alex Mineiro fazendo um gol cada um, dois gols no jogo, tudo o que precisamos para eliminar o Cruzeiro e ir à final da Libertadores de 2009. Decido um número de voltas completas, 20, e começo a contar: 20 vezes para o Ruy, 20 vezes para o Alex Mineiro. Àquela altura do campeonato já nem importa mais se o Ruy foi embora do Grêmio e se o Alex será banco. Em transe, me concentro na fricção que salvará o Rio Grande, primeiro o Ruy: um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze, treze, catorze, quinze, dezesseis, dezessete, dezoito, dezenove, vinte; depois, o Alex Mineiro: um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez, onze, doze, treze, catorze, quinze, dezesseis, dezessete, dezoito, dezenove, vinte.

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Paro.
Estou cansado.
Levo cerca de 10 minutos para fazer minha parte diante da humanidade.

Durante a cena onírica (até mística) não me preocupo em saber se a gordinha está feliz, se está triste, se sente medo ou se goza ininterruptamente. Acordo e vejo que ela mantém o mesmo semblante sereno (e safado) de antes. Sinto que meu Ray Ban caiu para quase a ponta do nariz, ajeito de forma a me proteger do sol cada vez mais mortal e, bem nessa hora, começo a mandar o exu que tomou conta daqueles minutos de volta para o inferno escaldante. Consciente de tudo, o eu deitado na areia assopra para o eu flexionado 10 metros adiante, e solta aquele conselho de irmão mais velho que me vem lento e pausado, doce e verdadeiro: “M-A-I-O-R B-A-R-A-N-G-A D-A A-R-E-I-A”.

Nesse momento, como quem lê qualquer pensamento que cruze aquelas praias, a gordinha se insinua, se revira, e diz sem dizer que poderíamos continuar aquela história de Ruy e Alex Mineiro, de 40 acariciadas em nome de um campeonato de futebol de um continente distante e selvagem. Subitamente olho para baixo e me dou conta do que estaria por vir: encorpado e semi-coberto, sedento por bola e louco para pular o aquecimento, ali está o Tcheco. O Tcheco me sorri com aquele sorriso quase caipira de quem sugere que o interior do Paraná pode ser o meu Alabama da perdição. Me desespero, tento voltar ao meu lugar de origem antes de dar brechas para que alguma força dos infernos profundos me prenda àquela situação. Imagino aquele Tcheco quente e úmido, longe da lisura de um Ruy ou de um Alex Mineiro, sendo acariciado uma, duas, três, vinte vezes em prol de toda uma pátria das três listras. Eu TERIA que fazer aquilo, afinal.

Como o vento que muda de direção, minha pior ficção se desfaz diante da realidade insuperável mesmo para quem usa Ray Ban em pleno século XXI. Consigo lentamente voltar para minha toalha, e suado busco na mochila a garrafa d´água que está em ponto de ebulição. Ali, sentado diante do Mar Adriático, no qual nasceu e morreu gente, pelo qual passaram Marco Polo e todos os imigrantes ilegais africanos que meus dedos jamais poderão contar, dou graças a Jesus Cristinho de Nazaré que o Grêmio, na noite de hoje, não precisa encarar a façanha úmida, quente, pegajosa e deletéria de ter que fazer 3 gols.

Leandro Demori

Entry Filed under: Clubes, Contribuições, Libertadores. .

36 Comments Add your own

  • 1. Diogo  |  02/07/2009 at 11:03

    Tô nervoso. porra. [Ribeiro, Milton].

  • 2. mardruck  |  02/07/2009 at 11:08

    A primeira foto não abriu aqui.

  • 3. Diogo  |  02/07/2009 at 11:15

    Putz, tem até foto do crime. [É topless aquilo?]

    Bem que minha vó já me dizia: muito sol na cabeça faz mal.

    Dá-lhe BORAT dos Pampas.

  • 4. Patrick  |  02/07/2009 at 11:17

    MORRI

  • 5. Luis F.  |  02/07/2009 at 11:34

    O texto ótimo, já o bigodinho…

  • 6. Leo Ponso  |  02/07/2009 at 11:34

    “Daquelas gordinhas que deram certo”

    Entendo muito. E adoro. NOSSA, ADORO (saudades, EGS).

  • 7. alemao  |  02/07/2009 at 11:36

    Na 2a foto tu parece o irmão mais novo do tcheco…fora isso, o texto dá um buttmann, hein?

  • 8. Tiele  |  02/07/2009 at 11:36

    GENIO SUPREMO! :~~

  • 9. martina  |  02/07/2009 at 11:59

    e o autuori conseguiu deixar a guria com um peito só…
    :P

  • 10. Luís Felipe  |  02/07/2009 at 12:02

    CHUPA, DAVID.

    sem mais.

  • 11. Milton Ribeiro  |  02/07/2009 at 12:13

    Sensacional. Muitas risadas por aqui.

    CHUPA, DAVID (2)

    Tô nervoso, porra.

  • 12. Luck  |  02/07/2009 at 12:22

    PUTAQUEPARIU!!!

    Que @#$(#@$(%@#$)%@#% de bigode é esse?!
    Milahres de piadas na minha mente ao mesmo tempo, nem, consigo processar.

    - Tom Selleck, me dá um autógrafo?

    - Juanito, Señor!

    - Porracaralho, Hermes!

    Magavilha, meu mano. As usual!

  • 13. Sanchotene  |  02/07/2009 at 12:33

    Inacreditável…

  • 14. Titi  |  02/07/2009 at 12:49

    As fotos. hehehehe. muito massa.

  • 15. Anderson Fraga  |  02/07/2009 at 13:25

    Inacreditável… [2]

    auyhauhauhauhauhauhauahuahuahauhauhau

    To nervoso, porra! [3]

  • 16. Arbo  |  02/07/2009 at 13:28

    mto, mto, mto bom.

    AUSPICIOSO é colorado vestir azul

  • 17. Carlos  |  02/07/2009 at 13:32

    SENSACIONAL.

    Demori, esse sim é “mito”.

    Chupa, milton!!!!

    açldkçasdklasçkldaksçdklçasdçklasdkç

    E não tô nervoso, tô de sangue doce.

    E gordinhas que deram certo >>>>>>>>>>>> Anoréxicas

  • 18. Sanchotene  |  02/07/2009 at 13:37

    Re 17

    “Gordinhas que deram certo”, eu as conhecia pelo termo “falsas gordas”…

  • 19. Francisco Luz  |  02/07/2009 at 13:42

    Isso certamente merecia ser FILMADO para passar na SESSÃO ERÓTICA do TELECINE ACTION durante as madrugadas.

    E com o Demori e esse BIGAS aí de protagonista, akjshajsha.

  • 20. Daniel Cassol  |  02/07/2009 at 13:49

    Como eu falei ao Demori na encardida negociação antes da publicação, afirmei que o texto era DOENTE.

    E, por isso mesmo, genial de mais.

    Só faltou uma foto mais de CLOSE da moça lá.

  • 21. col  |  02/07/2009 at 13:52

    Não vou secar pois o Cruzeiro é bem mais time, vamos combinar.
    A imortalidade é algo que só o Peninha acredita, vamos combinar também. -

  • 22. col  |  02/07/2009 at 13:53

    -)

  • 23. Fernando Cesarotti  |  02/07/2009 at 13:58

    Sensacional, mas reitero o pedido do editor: close, por favor. E lá em Bauru, na época da faculdade, a galera chamava essas minas de “Gordoboas”.

  • 24. Arbo  |  02/07/2009 at 14:08

    tbm não to nervoso. me parece q o inter deu uma espécie de presente pro grêmio ontem, deu várias barbadas do q NÃO FAZER. vai q, só por uma noite (citar CHORÃO não é auspicioso), entram algumas LUZES nas cabeças tricolores, e deixamos aquelas nossas outras deficiências na gaveta.

    não quero acreditar, quero q façam acontecer.

  • 25. Gustavo  |  02/07/2009 at 14:08

    FECHEM
    A
    INTERNET
    AGORA

    morri absolutamente

    To nervoso, porra! [4]

  • 26. Arbo  |  02/07/2009 at 14:11

    percebam AS GORDAS COEXISTINDO nos textos fabulosos de milton e demori. Demori venceu, pois não enfrentará Ronaldo obviamente.

    Aliás, ontem o Ronaldo aplicou a lei de sancho como poucos.

  • 27. Leandro Demori  |  02/07/2009 at 14:44

    Mas o Ronaldo eu não comia.

    Milton?

  • 28. Junior  |  02/07/2009 at 15:00

    Chupa, David!
    (1535)

  • 29. Yuri  |  02/07/2009 at 15:06

    Esse Demori é foda.

  • 30. Limão  |  02/07/2009 at 15:23

    #18

    Pela cultura de boteco tmb existem as gordinhas que se puxam e as gordinhas que se cuidam…. cada uma com suas peculiaridades…

  • 31. Frank  |  02/07/2009 at 16:12

    Baita texto…
    A comparação com o Tcheco foi MUITO foda…
    hahahahfdahdjhjhjsd

    TÔ NERVOSO (5430)!

  • 32. Carlos  |  02/07/2009 at 16:21

    Bah…to indo pro jogo…

    Vamos “alentar”…deixar de ser “amargo”…PQP…

    Me sentindo como um boi q tá indo pro matadouro.

    Oremos.

  • 33. Camilo CEO  |  02/07/2009 at 16:23

    Esse Demori é foda. [2]

    AGUANTE CRUZEROS BAMOS UNO GOLO EN EL PRINCIPIO E LO RESTO (detahle) SE QUEDARÁ NATURALMENTE BAMOS BAMOS

  • 34. Frank  |  02/07/2009 at 16:39

    Barbaridade, hoje o bicho vai pegar…
    Se o Grêmio passa, vamos com tudo pra cima de los pinchas…
    Se o Grêmio não passa, estamos fudidos e mal pagos… por isso, HOJE É O DIA…

  • 35. Gabriel B  |  12/07/2009 at 21:38

    Adeus vida, infartei, desintegrei. Demori, doente. To voltando pra Itália djá.

  • 36. Ariela  |  01/09/2009 at 00:58

    Devo ter perdido alguma coisa ou não entendo nada de Grêmio, mesmo. Lá pelas tantas, esta coisa de teta da gorda misturada com Alex Mineiro e outros cuecas passou um mal-estar. E, olha, creio que eu seja hetero. Excelentes sacadas, especialmente “Decido usar aleatoriamente a mão esquerda para começar a moléstia”. Adorei a demente insolação. Beijão!

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