O Pastor e o banquinho
28/10/2008
É provável que eu esteja me repetindo, mas a NEGRIDÃO dos tempos clama por IMPERTINÊNCIAS. Meu desempenho como boleiro nunca chegou a ser um PRIMOR – não tinha esperanças de que um OLHEIRO me encontrasse, por exemplo -, mas lá por 1993 minhas atuações na zaga central eram bastante SEGURAS, o que me tornava titular do time do bairro.
Então AVIZINHOU-SE um torneio a ser jogado no campinho da minha QUADRA. Os jogadores seriam divididos em vários times de sete e desfilariam seu talento num terreno baldio devidamente marcado com CAL, as goleiras com inacreditáveis REDES. Este mesmo terreno fora palco de diversos ESPETÁCULOS que marcaram a vida do bairro, como o CIRCO DO SÉRGIO MALLANDRO. Lembro que estava estudando para uma maldita prova de Química e era importunado por altíssimos GLUS-GLUS, seguidos de urros delirantes da massa. Mas TERGIVERSO.
A comunidade estava mobilizada para o torneio. Na hora de assinar a FICHA, fiquei sabendo que fora sacado, não apenas do meu time, mas de todos os times – portanto, do TORNEIO. Acontece que o Treinador recebera informações sobre o fato de que uns maloqueiros – eu dentro – haviam ESPALHADO pelo mundo que ele mantinha relações mais do que FRATERNAS com CABRAS. A história nunca foi COMPROVADA, mas a boataria era forte. Na minha hora de dar um AUTÓGRAFO na escalação e oficializar a minha participação, ele me sai com esta: “Tu ia jogar, mas não vai mais, pra deixar de ficar falando bobagem”.
Barranquear é verbo chucro
que eu bem cedo conjuguei
Barranco, toco ou cupim,
desse jeito me criei
talvez alguém ache estranho
o modo que eu me expressei
mas é a mais pura verdade
qual o guri que não fez?
O Treinador mostrava sua faceta de JUDAS. Não foram raras as vezes em que fui acordado domingo pela MADRUGADA porque um dos times que ele treinava precisava de um jogador. Não foram poucas as vezes que dei meu SANGUE. Tá, tudo bem, estou EXAGERANDO, mas já havia quebrado vários galhos. O Treinador, na verdade, era uma personalidade bastante, digamos, EXCÊNTRICA. Além de MEIO PUTO, andava metido com o pessoal da UMBANDA – algumas vezes cheguei a ver ele devidamente vestido de BAIANA, rodopiando num cruzeiro qualquer. Para a gurizada, um prato cheio e sob medida para a adorável tendência juvenil de avacalhar a tudo e a todos. E ainda tinha esta história de envolvimento EMOTIVO e TÁCTIL com o ELENCO CAPRINO. Bem mais polêmico que o Vanderlei Luxemburgo, portanto.
O pessoal distante destes pagos certamente fica horrorizado, mas muito já se falou sobre arte do BARRANCO e sua importância para a lapidação do caráter gaudério. Longe das CIDADES, muito RUDE para enamorar-se, o índio chucro do pampa teria suas primeiras experiências de prazer compartilhadas com ÉGUAS, OVELHAS e, sei lá, CAPIVARAS.
Tudo isso que eu falei
se alguém achar que foi feio
que me desculpem no más
mas fui criado sem freio
e todo o índio bagual
passou por esses recreios
mas nunca deixei china triste
e nem serviço no meio.
É estranho pensar nisto contaminado pelos PRECONCEITOS urbanos, mas faz bastante sentido se nos transportarmos para um tempo DISTANTE e/ou para um lugar REMOTO. Como afirma o Analista de Bagé, “Lá na fronteira se diz que nem toda mulher é vaca mas toda vaca é mulher. Não há coisa mais linda que uma barranqueada a céu aberto. Desenvolve o membro e o amor à natureza. E se o vivente me diz que na terra dele não tinha barranco, repico em cima: ‘E não tinha formigueiro?’ Não tem desculpa. Quando eu era guri, ia pro campo de banquinho”.
Analisando sob uma perspectiva teórica, os gauchos apenas levaram a fundo preceitos NATURALISTAS. Diz que troteavam folheando A Besta Humana e guardavam fotos de Zola na guaiaca. Eram uns fanáticos. Nada mais natural, portanto, que rolar aquela ZOOMORFIZAÇÃO amiga quando os instintos apertavam seu garrote. Indispensável perceber que tão aterrorizante comportamento certamente forjou a ÍNDOLE gaudéria mais primitiva, desgrudando da personalidade destes MONSTROS quaisquer traços de frescura e requinte.
O Treinador, portanto, era teimoso, o que indica uma insuspeita qualidade de um barranqueador nato. Observando diferentes técnicos pelo mundo, eu seria capaz de afirmar com total certeza quem já barranqueou ou não. Aquela teimosia, aqueles xingamentos contra o juiz, o palavreado chulo, a brabeza INDÔMITA, o senso TRÁGICO – tudo forjado pelo barranco. Não citarei nomes para preservar famílias.
Uma coisa, no entanto, é certa: Adenor Bacchi não barranqueou. Quando piazote, lá em Caxias do Sul, certamente seu passatempo preferido era escutar a conversa das tias, aprendendo os melindres da complexa e intrincada narrativa feminina, que depois viria a colocar em prática nas suas entrevistas coletivas. Aquela mansidão, aqueles longos contornos verbais, a puxação de saco com a torcida – tudo denota a falta do barranco, a ausência do barranco no momento em que sua personalidade se formava. Se algum dia aproximou-se de uma égua, certamente levou um coice. Ao que respondeu: “- Boa taxa de efetividade”. E correu para o sofá para comer bolinhos.
E esta pode ser a história de como Tite virou Pastor.
****
Os EXCERTOS são do poema PIÁ DE ESTÂNCIA, que encontrei aqui.
Saudações,
Douglas Ceconello.
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1. Junior | 28/10/2008 at 15:32
Excelente texto!
Sobre Adenor: aposto que jogava bolinha de gude dentro de casa, no carpete do apartamento. E quando jogava futebol, provavelmente era aquele jogador “fresco” que ao se levantar de uma queda, passa as mãos suavemente pela roupa para retirar a poeira.
2. Ingrid | 28/10/2008 at 15:33
Douglas Ceconello aproveitando o 38º aniversário para praticar a superação da galhofa. No bom sentido.
3. alemao | 28/10/2008 at 15:40
seguindo essa tioria: o roth casou com uma vaca… com meus respeitos à exelentíssima.
4. alemao | 28/10/2008 at 15:48
aé…parabéns!
Espero q tenhas uma boa taxa de efetividade sobre as mazelas q o destino há de aprontar na sequência deste teu campeonato particular…
5. Álisson | 28/10/2008 at 15:52
huahsuahsuhasuhaushuahsuahsuahsuahshusahua
Douglas totalmente insano e infame! Contando para o mundo a verdadeira forja do caráter gaudério!!!!!
Tite não barranqueou, nunca.
Mas tem treinador gaudério, que anda fazendo muito sucesso por terras do velho mundo, que barranqueava, sem dúvida!
6. Prestes | 28/10/2008 at 15:54
Perfeito!
7. Luís Felipe | 28/10/2008 at 16:00
tá, e tu barranqueou ou não?
8. Roger | 28/10/2008 at 16:05
“rodopiando num cruzeiro qualquer”
Não seria numa ” encruzilhada qualquer”? Desculpe a ignorância…
é que não manjo Umbanda sabe?!
9. Gustavo | 28/10/2008 at 16:19
Bah, não acreditei nesse texto, sério. Tá loco, o pastorinho é capaz de se enfezar (já é) e te meter um processo cheio de EFETIVIDADE.
No mais, Roth e Felipão barranqueavam, certo.
10. Arbo Menna | 28/10/2008 at 16:24
valeu o último grande parágrafo
no clima gaudério, e de aniversário, deixo – pelo menos – um belo poema do João da Cunha Vargas, q o Ramil belamente musicou, como homenagem a Cecco:
“último pedido”
Se um dia a morte maleva
Me dá um pealo de cucharra
Numa saída de farra
Me faça torcer o alcatre
Me ajeitem bem sobre um catre
Me tirem os laço das garra
A morte é sorra mui mansa
Comedera de sovéu
Que vem, desarma o mundéu
A mandado do Senhor
Nos larga num corredor
E dá uma espantada pro céu
Me enterrem num campo aberto
Que eu sinta o vento pampeiro
Em vez de vela, um candeeiro
Ao pé da cruz falquejada
Que eu possa enxergar a estrada
Por onde passa o tropeiro
Depois me deixem solito
Sobre o fraldão da coxilha
Junto ao pé da coronilha
Entre a mangueira e a tapera
Na “estância da primavera”
Coberto pela flexilha
Que eu ouça o berro do gado
De uma tropa em pastoreio
Ouça o barulho do freio
E o gaguejar das cordeonas
E retouços de redomonas
No chapadão do rodeio
Que eu sinta o cheiro da terra
Molhada da chuva em manga
Sinta o cheiro da pitanga
No barracão do pesqueiro
E o canto do joão-barreiro
Trazendo barro da sanga
Vou me juntar lá no céu
Onde só Deus bate asa
Não quero dar oh! de casa
Que a porta grande se tranque
Que me espere no palanque
Churrasco gordo na brasa
Vou viver na Estância Grande
Deste Patrão Soberano
Levar comigo o minuano
Pro rancho de algum posteiro
E pedir pra ficar lindeiro
Com o imortal Aureliano
Mas se lá não tiver carreira
Nem marcação campo a fora
Nem índio arrastando espora
Num jogo-de-osso em domingo
Eu quebro o cacho do pingo
E juro que venho embora
11. douglasceconello | 28/10/2008 at 16:26
hashuashuashuas
Bom que vocês também curtem uma galhofa.
Luís Felipe, é uma abordagem TEÓRICA. Inclusive o barranco pode ser FIGURADO. usahsausa
Roger, o termo certo é “encruzilhada”, mas “cruzeiro” é uma expressão comum ao pessoal das religiões AFRO. Pelo menos eu já ouvi bastante.
Ingrid, 38 é obra daquele CONSPIRADOR do Cassol. São nove a menos, na real.
12. izabel | 28/10/2008 at 16:27
ahhahahhhahhahah
sensacional.
guardou o melhor pra comemorar o aniversário.
parabéns.
13. douglasceconello | 28/10/2008 at 16:28
Ué, processar por que, Gustavo? Acabei de escrever que ele certamente NÃO barranqueou.
Não dou ponto sem nó.
asdhaushdisa
14. elvis | 28/10/2008 at 16:34
melhor texto, morri pra sempre.
parabéns carcamano!
15. Arbo Menna | 28/10/2008 at 16:36
bom, se tu dissesse o contrário várias OVELHAS te processariam, não é verdade? hehehe
16. Luís Felipe | 28/10/2008 at 16:37
Inclusive o barranco pode ser FIGURADO.</i.
ou seja: em algum momento da vida tu comeu alguém que parecia uma vaca, mas não pastava.
entendi.
(pinga-fogo de aniversário)
17. Andreas | 28/10/2008 at 16:40
Melhor texto do universo sobre o Adenor.
Nada mais precisa ser dito a respeito.
Agora, o que importa é a Sula.
Aliás, por que será que as diretorias de ambos os clubes fazem suas principais confraternizações no BARRANCO?
Será uma espécie de celebração subliminar àquilo que efetivamente nos forja o espírito?
Para se pensar.
18. Ingrid | 28/10/2008 at 16:44
#11
Hehehe
Eu desconfiava…. ahahahaha
Sacanagem, eu não sabia ao certo quantos ANOS, mas achei divertida a CONSPIRAÇÃO CASSOLIANA.
E pode ser cruzeiro também, lembrando que os cultos afros podem ser realizados nos cruzeiros onde se acendem velas [Cruzeiro das Almas]. Ingrid também é cultura.
19. Prestes | 28/10/2008 at 16:46
Melhor texto do universo sobre o Adenor.
Nada mais precisa ser dito a respeito. [ad infinitum]
20. Francisco Luz | 28/10/2008 at 16:46
Barranco figurado, nunca vi. Mas sobre o Tite, é certo que ele nunca ACARICIOU as ANCAS de uma NOVILHA.
21. alemao | 28/10/2008 at 16:48
ovelhas com tite, é só beijinho e abraço…
22. Prestes | 28/10/2008 at 17:00
Caras, pra mim o Roth na hora em que foi barranquear se estranhou com a égua e brigou de coice com a “moça”.
23. mardruck | 28/10/2008 at 17:07
Que bom que eu li isso DEPOIS de terminar o estágio.
Seria certamente demitido.
24. Prestes | 28/10/2008 at 17:12
A “barranqueada” simbólica proposta pelo Douglas me lembra o “joelhaço”, técnica do Analista de Bagé contra a depressão.
Certa feita, estava viajando com uns amigos e levei o livrinho, que é bem fácil de ler, aí todo mundo lia toda hora. E como viagem em bando dá muita discussão, o joelhaço simbólico era nossa arma, quando alguém vinha com frescura a resposta era, em tom de ameaça: “Vou te dar um joelhaço, rapá”.
25. Arbo Menna | 28/10/2008 at 17:21
analista de bagé é mto bom, hilário certas vezes
26. Tiago Medina | 28/10/2008 at 17:27
E vencer o campeonato do bairro é tão importante – ou até mais – do que ganhar do Boca numa Bombonera trêmula com dezenas de milhares gritando.
27. fino | 28/10/2008 at 17:59
http://globoesporte.globo.com/Esportes/Noticias/Futebol/0,,MUL840471-9842,00-MARADONA+E+O+NOVO+TECNICO+DA+ARGENTINA.html
28. Francisco Luz | 28/10/2008 at 18:23
Cadê o plantão desse site?
Dieguito novo treinador da Argentina. Agora, vai!
29. gilson | 28/10/2008 at 18:35
Hermano, baita texto, mesmo sendo um cabra que nunca vi mais gordo na vida, és parte de uma comunidade que passei a admirar, portanto: Parabéns!
pronto.
30. Luís Felipe | 28/10/2008 at 18:45
27, 28
vocês não podem estar falando sério
31. EGS | 28/10/2008 at 18:47
Tu fica melhor a cada dia, não adianta.
PARABÉNS E SOLO DE PORTÃO 6 (ns).
32. izabel | 28/10/2008 at 18:59
ia colar a notícia, mas o fino foi mais rápido.
post amanhã sobre o tema.
33. | 28/10/2008 at 20:20
Répi bãrtidei pra ti ae Suellen!
No mais, quero só ver como será a concentração da Argentina agora.
Sorte ao Maradonna em mais esta CARREIRA!!!
34. Carlos | 28/10/2008 at 21:38
Alisson:
Mandei o DVD via correio…me avisa se o cara de amarelo e azul fez o serviço direito.
ãRRã!
35. bruno | 28/10/2008 at 21:55
loco, aplaudi o texto.
maravilha
36. dante | 29/10/2008 at 07:47
acabo de ser demitido.
***
carlos: saiu a parte 2 desse filme. melhor que tu não veja.
sério.
37. Álisson | 29/10/2008 at 08:01
Valeu Carlos, muito obrigado!
Na primeira oprtunidade irei na Impedlada e te pago uma gelada!
Pode deixar que eu te aviso quando chegar.
PS: O comentário 33 é meu!!!!!!!!!!
38. JC | 29/10/2008 at 10:58
Muito bom!!!
“Aquela teimosia, aqueles xingamentos contra o juiz, o palavreado chulo, a brabeza INDÔMITA, o senso TRÁGICO – tudo forjado pelo barranco.” = FELIPÃO
Ô Dante, como se PRONUNCIA o nome daquele filme sobre teorias de conspiração e o escambau?
39. dante | 29/10/2008 at 12:23
“ZÁITGÁIST”, JC.
40. dante | 29/10/2008 at 12:23
aliás, tem uma segunda parte, “zeitgeist: addendum”, mas prefiro que vocês não vejam.
sério.
41. Álisson | 29/10/2008 at 13:19
Carlos!
O Homi de amarelo e azul apareceu lá casa, tá recebido!
Essa semana ainda vou ver o que de muito louco tem essa bagaça!!!!
Valeu cara, muito obrigado.
42. Boçal | 29/10/2008 at 17:55
Douglas > David Coimbra.
Sexy Hot barranqueou?
43. Marimon | 06/06/2009 at 10:51
J-E-N-E-ALL