Carlo impregnado

10/07/2008

Para Lia e Natal

Gosto de crianças. Tenho boas relações com elas. Costumo chamar suas atenções por comportamentos surpreendentes num adulto e faço concorrência natural aos recreacionistas de festas infantis. Porém, minha relação com meu afilhado é complicada. Tenho restrições a ele e nunca as escondi. É TV demais, é videogame demais para mim. Ele sabe bem disto e diz que sou um chato. Meus filhos nunca pediram videogame e, se a Bárbara via muita TV quando pequena, depois foi se afastando dela. Fico indignado com ele, sempre olhando para uma tela.

É difícil convencer uma criança que há coisas tão legais quanto ficar deitado como uma besta vendo TV ou ganhando incrível habilidade com os dedos no videogame. (Certa vez, minha filha arrancou-nos risadas ao dizer que o Carlo era muito bom com os dedos…) Eu, em minha sistemática pressão antiTV, entrava em casa diariamente cantando em altos brados a música dos Titãs:

A televisão me deixou burro
muito burro demais
agora todas as coisas que eu penso
me parecem iguais

E, depois, o golpe fatal que irritava minha filha e a “obrigava” a correr atrás de mim para me bater:

(…)
é que a televisão me deixou burro
muito burro demais
e agora eu vivo dentro dessa jaula
junto dos animais.

Pois ontem eu fui ao futebol com o Carlo e a Bárbara. Ela tem hoje treze anos, o Carlo, oito. Ela manda nele, ela – como as mulheres costumam fazer sistematicamente conosco – o domina. E fim. Ele faz os temas orientado por ela, na hora que ela quer e monitorizado por ela. Ela ralha com ele, não o deixa comer de boca aberta, não deixa que ele arrote, obriga-o a vir almoçar junto dos outros – coisa que a mãe do Carlo apenas sonha em conseguir -; ou seja, she`s the boss. E ela decidiu que o Carlo iria a seu primeiro jogo de futebol.

Ir a um jogo com eles é uma fortuna. É boné para ele, pulseira para ela, é salgadinho para os dois, sorvetes, amendoins, mais salgadinho, água, o diabo. Mas vale a pena. Quando veio o primeiro moço com a cesta de salgados, carregando todos aqueles quilos de gordura trans, e ofereceu seus produtos, o Carlo respondeu:

- Não, agora não, recém comi um pão e um suco. Depois eu vou querer. Volta depois, tá? Obrigado.

É claro que o homem não ouviu nada após o primeiro não. A Bárbara dava gargalhadas, explicando a seu pupilo que não precisava dar um discurso para cada um, que era só dizer não, obrigado. Mas ele É discursivo, tem boa capacidade de expressão e, óbvio, deseja expressar-se. Seguiu falando com todos…

Mas, voltemos um pouco no tempo. Voltemos a nossa entrada na arquibancada. Antes do campo abrir-se para nós, eu o avisei:

- Te prepara para uma visão espetacular. Tu nunca vai esquecer disso.

Ele caminhou (milagre!) silenciosamente até a borda da arquibancada superior. Parei a seu lado e vi que ele estava pasmo, boquiaberto, já impregnado. Uma boca enorme, aberta mesmo. Há qualquer coisa de arrepiante para um amante do futebol em ver um campo de futebol à noite. É uma coisa que só nós entendemos e que é impossível transmitir. A melhor resposta para quem não entende nossa cara nestes momentos é a de Louis Armstrong quando lhe perguntaram qual era a graça que ele via no jazz: Man, if you gotta ask, you’ll never know. Se você tem que perguntar, nunca saberá.

Ou seja, o vírus inoculara-se de forma severa no Carlo. Ele já estava apaixonado, talvez menos do que pela Bárbara, mas fora algo violento, forte. Não tive muito tempo para ficar nostálgico lembrando do dia em que meu pai me levara para ver Inter 1 X 0 São Paulo, em 1968, nem para recordar o ainda mais emocionante Inter 4 X 0 São Luís, a estréia do meu filho Bernardo no Beira-rio, pois tinha que controlar o Carlo dando discursos encantados com tudo, mas principalmente com aquela atmosfera macha e tribal… Logo começou a demonstrar todo seu grande conhecimento de palavrões.

- Vai tomar no cu, seu juiz idiota do caralho. Enfia o apito no rabo!

Sim, admito, foi um começo promissor do menino, apesar de ele levantar a cada minuto, atrapalhando o pessoal de trás para torcer gritando:

- Vai, vai, vai, vai! Não!

Ou utilizando a mui contrastante variação:

- Isso, isso, isso, isso! Não!

Quando dava-se conta de que tinha levantado novamente, pedia desculpas aos detrás, que riam, achando divertido meu filho “descontroladinho”…

Foi muito divertido, claro. Um dia, nessa grande desilusão do crescer e amadurecer de cada um de nós, talvez o Carlo queira reencontrar seu próprio deslumbramento com o mundo. Os escritores alemães (a começar por Goethe e seu Wilhelm Meister) criaram um gênero de romance muito próprio, aquele que trata da história pessoal da desilusão: o Bildungsroman. É o romance de formação, da edificação da individualidade, da incorporação da cultura. Mas nada disso ele reencontrará se ler este texto, talvez apenas dê risadas de sua falta de jeito. Ele apenas reencontrará aquela epifania onde a vi ontem.

Milton Ribeiro

Entry Filed under: Contribuições. .

12 Comments Add your own

  • 1. fino  |  10/07/2008 at 18:42

    Bacana o texto, Milton.

    Fiquei uns minutos aqui pensando nessa coisa da reação ao adentrar o estádio pela primeira vez…

    Hoje é uma coisa tão banal pra mim, sem graça até, com exceção dos grandes jogos com publico superior a 40 mil pessoas, que, SEMPRE, enchem os olhos e dão aquele frio na barriga…

    Por outro lado, a sensação de entrar em OUTROS estádios é bastante semelhante…

    Infelizmente conheço só alguns do Rio Grande do Sul: Olimpico, Beira-Rio, Centenario, Jaconi, ESTÁDIO DA ZONA SUL… e outros que não lembro o nome (São Luiz de Ijuí, Passo Fundo e Santa Maria)…

  • 2. mardruck  |  10/07/2008 at 19:18

    Eu vou pouco ao Olímpico. Moro em São Paulo e são raras as oportunidades pra ir pra Porto Alegre.

    Sempre que passo pelo corredor, começo a ver as pessoas e, mais tarde, o campo, me arrepio muito.

  • 3. Rodrigo  |  10/07/2008 at 19:29

    Nasce um corneta!

  • 4. Cassol  |  10/07/2008 at 20:12

    O urro crescente e o DESPERTAR de cores no trajeto do túnel são as sensações mais vivas que tenho do meu primeiro jogo no Beira-Rio: Inter 2 x 2 Atlético-MG, em 1992.

    Aliás, naquela época que eu vinha para o Gigante de EXCURSÃO e saía de madrugada lá de São Sepé, passávamos a tarde no pátio do estádio e lembro de conversar com o Luiz Fernando e o Maizena nesta condição. Hoje em dia chego no campo sempre em cima do laço, mas acho que não rola mais essa INTERAÇÃO jogador-torcida no estacionamento do Beira-Rio

  • 5. Iuri  |  10/07/2008 at 21:15

    Impossível não ficar ansioso antes de ter a visão de um estádio lotado…

    nas cadeiras do Olímpico, ao subir a escadaria tu te depara com a multidão no anel inferior e vai subindo…ainda é emocionante haha

    agora, nas sociais, o fim do túnel também proporciona algo semelhante.

  • 6. Iuri  |  10/07/2008 at 21:18

    e belo texto.

  • 7. Alisson Coelho  |  11/07/2008 at 09:38

    Belo texto…

    São situações como essa que me fazem amar o futebol…

    Não as grande negociações, as politicagens. O bonito do futebol são experiencias que só ele proporciona!!!

  • 8. Milton Ribeiro  |  11/07/2008 at 09:45

    Obrigado.

    Cassol, Maizena? Puxa, hoje sou feliz e não valorizo o fato!

  • 9. Luís Felipe  |  11/07/2008 at 10:22

    texto muito bonito, mesmo. O Carlo vai gostar de ler mais adiante.

    a única lembrança que eu tenho da minha primeira jornada no Beira-Rio, aos 6 anos, é o campo, que eu achava grande demais. Só depois essa visão de êxtase de um campo lotado de gente realmente apareceu. E meu primeiro jogo noturno foi inesquecível.

  • 10. joão carlos  |  11/07/2008 at 12:40

    eu me perdi nos personagens, mas tudo bem.
    abstraí os nomes (e o time…eheheheh…) e fiquei só com a beleza da situação, na regra geral.

    afudê.

  • 11. Rômulo Arbo  |  11/07/2008 at 14:58

    O jogo à noite, refletores acesos, realmente tem um tempero mágico

  • 12. Junior  |  11/07/2008 at 17:29

    Para uma criança, um jogo à noite é especial, tudo parece diferente. Milton, parabéns pelo texto.

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