A outra final
02/07/2008
A Copa do Mundo de 1978 não foi somente aquela em que coisas estranhas aconteceram até que o título ficasse com a Argentina, dona da casa. Foi um Mundial cuja conquista “se festejou enquanto a ditadura militar aperfeiçoava o terrorismo de Estado sobre 25 milhões de argentinos com sua seqüência de seqüestros, torturas e desaparecimentos”, como disse o jornal Página 12. Três décadas depois de Argentina e Holanda, o Monumental de Nuñez foi palco de uma outra final.
Em 25 de junho de 1978, os argentinos venceram os holandeses por 3 a 1, na prorrogação, com gols de Kempes duas vezes e Bertoni. No último domingo, entidades de defesa dos direitos humanos organizaram uma partida amistosa no mesmo palco da final, para relembrar os cerca de 30 mil mortos e desaparecidos pela ditadura militar argentina.
Participaram do jogo três finalistas daquele mundial: Leopoldo Luque, Ricardo Villa e o Loco Houseman. “Eu não me senti usado porque queria jogar o Mundial, era um sonho para mim. Na verdade, não tenho que pedir perdão a ninguém”, disse Luque ao Página 12.
“Há uma coisa que tem que ficar muito clara: não estamos por nada acusando os jogadores daquele momento”, falou à Reuters Tati Almeida, da associação de mães da Plaza de Mayo.
Houve um certo lamento porque apenas três jogadores daquela final compareceram ao encontro do final de semana. De qualquer forma, cumpriu-se o objetivo: Hacer memoria en un país de memorias flacas, como disse o Página 12.
País de memórias fracas: parecem estar falando do Brasil. Na Argentina, pelo menos, estão julgando os torturadores.
Abaixo, uma seleção de vídeos para ilustrar o post:
- Documentário de sete minutos “A morte e a bola”
- Abertura do filme Cautiva, que mostra o general Videla entregando a taça para Daniel Passarella.
- Videla discursa na cerimônia de abertura da Copa de 78
- Videla e Henry Kissinger, então secretário de Estado dos EUA, visitam o vestiário do Peru antes do 6 a 0 para a Argentina.
- Gols de Argentina 6 x 0 Peru e entrevista sobre o jogo com o jornalista David Yallop, autor do livro “Como eles roubaram o jogo”.
- Chamada para La Otra Final.
- Momento do evento de domingo em Nuñez.
Venceremos,
Daniel Cassol
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1. Milton Ribeiro | 02/07/2008 at 09:22
Daniel, recomendo-te FORTEMENTE o romance Duas Vezes Junho, de Martín Kohan. Ele trata de acontecimentos ocorridos em prisões bonairenses na noite em que a Itália venceu a Argentina em 78, no mês de junho.
O outro junho é de 82, do dia em que o Brasil novamente vence a Argentina, quando os milicos estão bem acomodados (alguns criando filhos de militantes).
Se estiveres interessado e eu encontrá-lo no meio da minha confusão, levo o livro para ti hoje.
Abraço.
(Rapaz, o Loco Houseman era sensacional!!!!)
2. Milton Ribeiro | 02/07/2008 at 09:31
O wordPress tá de sacanagem. Comentário duplicado uma merda!
—————————————–
Dos Veces Junio foi tema de uma edição do Clube de Leituras do Idelber.
Aqui está o post-resultado com resenha do Idelber e 40 comentários:
http://www.idelberavelar.com/archives/2006/06/sobre_duas_vezes_junho_de_martin_kohan.php
O post que o segue é uma entrevista do Idelber com Kohan. Tudo isto ocorreu em plena Copa de 2006.
Chega de abraços!
3. Gustavo | 02/07/2008 at 09:47
Eu até acho que a Argentina é sim um país de memória fraca. Comparativamente, o Brasil é totalmente DESPROVIDO de memória.
Achei muito bacana a iniciativa deste jogo. Não há dúvidas de que a Copa foi muito conveniente para ocultar fatos da ditadura argentina. Temo muito pelo o que acontecerá antes, durante e depois da copa de 2014.
No nosso país, ainda é fácil encontrar “viúvas” da ditadura, infelizmente.
4. Daniel Cassol | 02/07/2008 at 10:26
Milton, se tu achar o livro, vou querer fazer o empréstimo.
E é, Gustavo, eu diria que anda cada vez mais fácil encontrar.
5. Flávio | 02/07/2008 at 12:21
Regimes autoritários – e democráticos também, embora em menor grau – sempre exploraram conquistas esportivas para encobrir seus crimes e promover suas “realizações”. Da Itália fascista à URSS da Guerra Fria, dos Jogos Olímpicos de 36 na Berlim de Hitler a Pequim-2008, da Cuba castrista à Argentina dos anos 70.
Por outro lado, a decisão de torcer contra o próprio país para enfraquecer um regime é um dos gestos políticos mais inócuos que posso imaginar. Embora Médici tenha se apropriado do tri como mais um elemento do seu projeto de “Brasil Grande”, não foram Pelé e cia. que garantiram a sobrevivência da ditadura. Tanto que durante o regime militar, o Brasil perdeu as Copas de 66, 74, 78 e 82, sem que essas derrotas tivessem qualquer influência nos rumos políticos do país. Os gorilas só voltaram aos quartéis em 1985.
Mesmo agora, no século XXI, muitos lamentam o fato de as eleições presidenciais caírem no mesmo ano da Copa. Mas em 2002, o penta não beneficiou o candidato governista. Assim como a derrota em 2006 não favoreceu a oposição.
Em relação à Argentina, na Copa de 78 houve uma “trégua” entre o aparelho repressivo e os guerrilheiros do grupo armado Montoneros. Estes se comprometeram a não promover atentados terroristas durante o Mundial, enquanto os militares deram uma relaxada nas perseguições – mesmo porque, num evento com grande presença da imprensa mundial, a ditadura tentou passar a melhor (ou menos ruim) imagem possível. Ah, e ao contrário dos nossos esquerdistas em 70, os Montonores torceram pela sua seleção.
6. Arbo Menna | 02/07/2008 at 12:57
Ontem mesmo no elevador, subi três andares com um discursinho desses nostálgicos… “naquele tempo não se roubava essa DINHEIRAMA…” aham…
7. Arbo Menna | 02/07/2008 at 13:03
Bah, já me interessei de saída pelo livro… há um mês presenciei uma palestra bueníssima do Martin Kohan, vou no link
valeu, milton
8. Prestes | 02/07/2008 at 13:54
O Brasil tem memória seletiva.
9. Arbo Menna | 02/07/2008 at 15:27
valeu mesmo, Milton, apreciei mto o link
10. Junior | 02/07/2008 at 15:31
No mesmo dia do último Brasil x Argentina, em Belo Horizonte, completou-se 30 anos do Brasil x Argentina da Copa de 78, a chamada “Batalha de Rosário”. A ESPN Brasil mostrou lances do jogo e em determinado momento, a tribuna de honra foi filmada. O João Havelange estava sentado do lado do Jorge Videla. É o típico caso em que uma imagem vale por mil palavras. É lamentável que para a maioria da imprensa nacional, o sr. João Havelange é um herói. O pior de tudo é que o nome oficial do Estádio do Pan é João Havelange. Um estádio construído para sediar um evento de esportes olímpicos deveria se chamar Ademar Ferreira da Silva, o maior atleta olímpico do país e um verdadeiro herói por conseguir ganhar duas medalhas de ouro consecutivas, mesmo com a ridícula estrutura esportiva do Brasil à época.
11. Atilio | 02/07/2008 at 15:45
É aquela história do Benjamin de que a história é contada pelos vencedores. Virou um clichê desgraçado, mas no Brasil tem tudo a ver e ajuda a explicar até mesmo discursos em aparência e postura bastante críticos… mas no fundo…
12. Neni | 02/07/2008 at 15:52
seria josé lewgoy entregando a taça ali na foto?
13. Cassol | 02/07/2008 at 15:55
José Lewgoy, exatamente, Neni.
Eu olhava pra lata do Videla enquanto escrevia o post e pensava: com quem este cara é parecido?